aí eu decido que agora quero escrever crônicas. que crônicas são muito bonitas sim. e que sempre foram. é só você pegar as edições da revista literária da ufmg que lá em 1960 já tinha crônicas bonitas. mas eu não posso escrever crônicas porque tenho que ler, e minha vida já não ta deixando ficar lendo o tempo todo. é que eu namoro e namoro é uma coisa que exige tempo e energia. igual leitura. tem gente que pensa que leitura é sentar e ler. mas não. leitura é sentar, ler e pensar sobre o que você está lendo. mas eu sou do signo de touro. não sei meu ascendente. a nina que trabalhava comigo e tinha sobrenome italiano tentou fazer meu mapa astral, mas ela colocou o ano errado então não tem como eu saber meu ascendente. ela bem que poderia fazer outro mapa astral pra mim, mas esse com o ano certo porque aí eu saberia se meu ascendente é bom, porque o signo mesmo, que é touro, não é muito bom não. dá muita preguiça e quando encasqueta que quer escrever uma crônica ele não sossega e não consegue concentrar na leitura até escrever uma crônica, mas tudo bem né, eu li no uol hoje que quem é de touro tá regido por umas coisas de venus e mercúrio que dão maior vazão para as veias artísticas. só não sei se escrever uma crônica é uma coisa da veia artística ou se é mais um modo de procrastinação inventado pela minha cabeça que tem um touro dentro.
segunda-feira, 14 de setembro de 2015
terça-feira, 11 de agosto de 2015
tentativa
eu odeio ter que escrever sobre você. eu odeio porque eu não consigo passar as sensações que você me passa pro papel, eu não sei te descrever sem parecer um lunático, um adicto. não existem palavras no meu vocabulário que podem lidar bem com essa tarefa, aliás eu preciso muito andar com um dicionário por aí pra ver se todos esses sentimentos que rasgam o meu peito de uma forma doce têm nome, sinônimo, antônimo eu já sei que não tem. você é isso. é essa ruptura do significado no plano do significante, ou o contrário nunca entendi direito o significado de significado, eu sei o que você significa e isso pra mim tá de bom tamanho. só que aí vem a vontade de gritar pro mundo, mas gritar como? eu não sei tocar violão e nem tenho uma voz maravilhosa, isso ajudaria. talvez meu grito venha dos meus gestos, dos meus olhos brilhando enquanto você toca violão e canta com a sua voz maravilhosa, talvez seja o jeito que eu coço o nariz quando to sem paciência para as coisas que o mundo trata como urgência e eu entro na dele. eu ainda tenho que ler muito, tenho que me alimentar e tenho que ser muito artista pra tentar escrever sobre você. mas ainda assim, escrevo. essas migalhas de palavras que eu solto por aqui ou por ali é o alívio que me resta, ainda que muito torto. alívio desse punhado de coisas boas que você me passa, que na verdade não é alívio nenhum é só alive.
das vantagens de não morar em ouro preto
é só tomar um supetão e ir correndo pra rodoviária, a passagem não custa muito. fora que o custo benefício é muito mais benefício que custo. aí, é como se em pouco mais de uma hora e meia você fosse transportado para outra dimensão. uma dimensão inspiradora, de onde brota um cheiro de chocolate quente por entre os ventos frios. uma dimensão na qual começa a tocar uma música de um violino enquanto você olha o pedaço de matéria que você mais ama do outro lado da rua. namorar em ouro preto tem que ser árcade, tem que ser um do lado da ponte e o outro da outra. tem que ficar injuriado de vergonha quando os olhares se encontram e nem com toda a força do seu corpo e da sua alma você consegue controlar o sorriso involuntariamente voluntarioso que rasga seu rosto. a vantagem de não morar em ouro preto é se encantar cada vez que se vai lá. é descobrir uma rua nova com teatro de bonecos, é descobrir um brilho nos olhos de quem faz os seus brilharem. é entrelaçar os dedos quando as almas já, há muito, se entrelaçaram. nenhuma fotografia é capaz de captar o que ouro preto emana.
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
cuidado frágil
. nunca fomos uma caixa. Nossa concepção foi descabida, despretensiosa e emergencial. No meio do escuro fez-se a luz. E sabíamos. Momento único. Era perceptível. É perceptível. A gravidade é a atração de dois corpos, um interagindo com o outro. O celulares são, milagrosamente, aparelhos que fazem uma ligação entre dois corpos longes. Estamos cercados de ligações. Mas nenhuma importa mais que a nossa.
quarta-feira, 24 de junho de 2015
suja e só
Não sei quantas pessoas já disseram isso. E não considero apropriação ou plágio da palavra alheia. É uma verdade. É a contestação mais óbvia desde 'a Terra é azul': São Paulo é um grande organismo. Colossal. Uma cidade que é mais populosa que vários países.
As pessoas nas veias abertas da cidade não são nada mais que um ponto. Você encontra com alguém um dia e, dificilmente, verá a mesma pessoa na sua vida. Isso, apesar de movimentado e dinâmico, pesa na contradição. É solitário e carente. É muito mais difícil estabelecer alguma relação assim. Cada pessoa tem o seu papel, trabalha no lugar x fazendo tal coisa para que aquilo aconteça. Esse é o sistema da cidade. Todo mundo fazendo da sua vida e do seu tempo o meio para que a cidade não pare. E ela não para! Abaixo do chão milhares e milhares de pessoas estão, no chão e bem acima do chão.
A cidade é suja. A cidade é fria. A cidade é só. A cidade é cinza. E, arrisco dizer que talvez, é por isso que eu gosto, preciso e almejo ela.
sexta-feira, 12 de junho de 2015
do infinito
eu uso suas roupas pra que seu cheiro me abrace pelo resto do dia
eu uso seu tom de voz e suas arranhadas para que eu te ouça quando não está
eu uso seu olhar porque já aprendi que ele é mais colorido que o meu
eu uso seu coração porque ele é mais puro e contagia
eu admiro sua coragem
eu admiro sua paciência
eu admiro sua arte
eu admiro sua língua
eu já me tornei menos eu
sou nós
eu uso seu tom de voz e suas arranhadas para que eu te ouça quando não está
eu uso seu olhar porque já aprendi que ele é mais colorido que o meu
eu uso seu coração porque ele é mais puro e contagia
eu admiro sua coragem
eu admiro sua paciência
eu admiro sua arte
eu admiro sua língua
eu já me tornei menos eu
sou nós
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